segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Carne exposta
O meu Amor repousa, estendido, na estrada. Tão mutilado que custa olhar. O pêlo brilha, ainda, por entre a carne exposta. Com o tempo, dizem-me, perderá a forma. Será cada vez mais uma mancha indefinida, algo que não se percebe o que foi, tão desfigurado surge. Mas eu saberei sempre - mesmo que o vento e a chuva e os homens o reduzam a algo invisível - que o meu amor está ali. Ainda que morto, esmagado, sem dignidade.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
sexta-feira, 24 de julho de 2009
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Especial

Todos lhe diziam que era especial. Ele sabia porquê: nascera com o coração fora do corpo, trancado numa caixa de vidro presa apenas por um cordão muito fino, cor de prata. No Inverno, acomodava o órgão, quente, no interior da sua invulgar protecção, no bolso do casaco. Chegava a esquecer-se dele. Por vezes, um gesto mais brusco atirava-o ao chão. Nunca sofreu mais do que uns arranhões – a caixa, não o coração. Esse pulsava lá dentro, era igual aos outros, tinha um ar muito vivo, forte. Com a chegada do calor, costumava segurá-lo na mão. Era nessas alturas que as pessoas lhe diziam: és especial.
Num dia especialmente quente, ele conheceu a Ilusão. Era bela, mas de uma beleza sem padrão. Se lhe perguntassem “o que vês nela?”, não saberia dizer. Não era isso o amor? A tortura dos sentidos enclausurados, a implorar liberdade sem freio? As semanas correram num delírio de emoções. Quando saíam juntos ele perdia-se no olhar perturbador dela e, não raras vezes, deixou a caixa com o coração – agora, sacudia-se com mais violência do que nunca – arrastar-se pelas ruas. Até ficar mais e mais debilitada. Aquelas pessoas que não lhe diziam “és especial” pediram-lhe cautelas. Em vão.
Num dia calmo de estacionamento dos corpos à beira do lago habitual, a Ilusão beijou-o e aproveitou o momento de rendição. Sem dificuldade, quebrou a caixa de vidro que protegia o coração (como podiam aqueles dedos tão esguios e aparentemente frágeis ter tanta força?) e, com as longas unhas, cortou-o em fatias bonitas, com a mesma espessura.
Ele demorou algum tempo a aperceber-se.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
A explosão
Fazer um corte, uma tatuagem, uma explosão, uma catástrofe. Matar. Para não morrer tanto.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
mármore.

- Hoje acordei com o lado direito do corpo apodrecido.
- Hoje acordei com o mar dentro dos olhos.
- O mar estava revolto ou apaziguado?
- Revolto. com ondas feitas de rostos passados.
- Tinham rugas ou conservavam o mármore mortífero?
- Tinham mapas de mundos destruídos, cravados na pele.
- Então a ruína sempre vem para todos.
- A ruína vem para aqueles que ergueram sonhos e estenderam caminhos. É injusto.
- Não. Todos caem.
- Mesmo os protegidos pela cegueira?
- Um dia o mundo vinga-se.
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