quinta-feira, 9 de julho de 2009

mármore.


- Hoje acordei com o lado direito do corpo apodrecido.

- Hoje acordei com o mar dentro dos olhos.

- O mar estava revolto ou apaziguado?

- Revolto. com ondas feitas de rostos passados.

- Tinham rugas ou conservavam o mármore mortífero?

- Tinham mapas de mundos destruídos, cravados na pele.

- Então a ruína sempre vem para todos.

- A ruína vem para aqueles que ergueram sonhos e estenderam caminhos. É injusto.

- Não. Todos caem.

- Mesmo os protegidos pela cegueira?

- Um dia o mundo vinga-se.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

a dança.


- Tesouros de sangue, guardo tesouros de sangue nas aves que partem com os meus olhos.

- Os céus cobrem as primaveras guardadas nos teus olhos. As aves, essas, pousam nos beirais dos corpos que se agitam na tempestade.


- As primaveras são de luz e sangue, é bom ter havido primaveras. E corpos despertos.

- Quantas vezes morre um corpo por não ter sentido a dança de histórias finitas?

- Demasiadas.


*imagem de chooupinette.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Violência

Somos aves de rapina.
Quando trocamos olhares
Sabemo-lo.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Hoje


Hoje, a vida é triste como um animal ferido que queríamos ajudar, como um velho que perdeu a companheira da vida toda, como o frio dos dias de chuva que nos apanha de t-shirt apenas. Hoje, pesa-te a tua inutilidade. Perguntas: por que não podes, com a tua ânsia criadora, acertar as imperfeições do mundo?


(Olha, gato, não estás mais doente, acabou-se a dor no silêncio, acabaram-se os maus tratos e agora o teu mundo é longo e feliz, tens calor para adormeceres em paz. Tens festas.)


Nos sorrisos mais escondidos hei-de encontrar escape. Vou aninhar-me como numa camisola felpuda e esperar que me dêem atenção enquanto finjo dormir.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009


"Passa no mundo a estranha ventania: é a morte que custa a separar da vida."


(Raul Brandão, in "Húmus")

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

"Dias vai continuar a haver"



















Como é que se preenche de volta o olhar de um homem que perdeu o filho?

E o amava. Porque há pais que só o são por acaso. Porque aconteceu, porque toda a gente o faz, porque depois outros tomarão conta dele, e que vale isso, afinal?

Este homem amava o filho e sentia que a escuridão se ia embora quando ele chegava, sem avisar, à casa modesta naquela aldeia perdida, muito perto da praia. Ali, não cheirava a mar, mas havia de chegar o aroma a desespero característico das horas em que mais um pescador é engolido pelas águas salgadas e intempestivas. E, simplesmente, se sabe.

Este homem, que amava o filho, era tão belo na sua virtude que nem os dentes estragados, de um amarelo torrado, lhe desfaziam a face azul transparente, como imaginamos o corpo das sereias. E elas deviam andar perto, a cantar-lhe, porque ele não ouvia ninguém - nem queria. Conseguem imaginar Joaquim, que morreu para a esperança e para a alegria, quase totalmente, num dia de Natal, e ainda é belo? E chora, chora, e faz-nos querer chorar só porque não havia direito.

“Dias vai continuar a haver”.

Tudo vai continuar a haver, só ele é que não. Nota-se, o que o habita já voou para qualquer lugar. Impossível chegar lá.

Gostaríamos de preencher-lhe o olhar, de qualquer maneira, outra vez. À força, se preciso, a pazadas de energia: por favor, por favor, aceita isto que te damos, é força para continuares a ser o mesmo, doce e encantador.

Mas como se preenche de volta o olhar de um homem que perdeu o filho? E o amava.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Para nós houve esperança















Seguimos
quebradas
na escuridão dos dias cheios de sol.
Para nós houve esperança,
Embora pensássemos que não.


Este tempo não é de paixões, não é de fogos.
Este tempo é de coisas que nos deformam .

* Foto de António Gregório