sexta-feira, 27 de março de 2009

Hoje


Hoje, a vida é triste como um animal ferido que queríamos ajudar, como um velho que perdeu a companheira da vida toda, como o frio dos dias de chuva que nos apanha de t-shirt apenas. Hoje, pesa-te a tua inutilidade. Perguntas: por que não podes, com a tua ânsia criadora, acertar as imperfeições do mundo?


(Olha, gato, não estás mais doente, acabou-se a dor no silêncio, acabaram-se os maus tratos e agora o teu mundo é longo e feliz, tens calor para adormeceres em paz. Tens festas.)


Nos sorrisos mais escondidos hei-de encontrar escape. Vou aninhar-me como numa camisola felpuda e esperar que me dêem atenção enquanto finjo dormir.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009


"Passa no mundo a estranha ventania: é a morte que custa a separar da vida."


(Raul Brandão, in "Húmus")

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

"Dias vai continuar a haver"



















Como é que se preenche de volta o olhar de um homem que perdeu o filho?

E o amava. Porque há pais que só o são por acaso. Porque aconteceu, porque toda a gente o faz, porque depois outros tomarão conta dele, e que vale isso, afinal?

Este homem amava o filho e sentia que a escuridão se ia embora quando ele chegava, sem avisar, à casa modesta naquela aldeia perdida, muito perto da praia. Ali, não cheirava a mar, mas havia de chegar o aroma a desespero característico das horas em que mais um pescador é engolido pelas águas salgadas e intempestivas. E, simplesmente, se sabe.

Este homem, que amava o filho, era tão belo na sua virtude que nem os dentes estragados, de um amarelo torrado, lhe desfaziam a face azul transparente, como imaginamos o corpo das sereias. E elas deviam andar perto, a cantar-lhe, porque ele não ouvia ninguém - nem queria. Conseguem imaginar Joaquim, que morreu para a esperança e para a alegria, quase totalmente, num dia de Natal, e ainda é belo? E chora, chora, e faz-nos querer chorar só porque não havia direito.

“Dias vai continuar a haver”.

Tudo vai continuar a haver, só ele é que não. Nota-se, o que o habita já voou para qualquer lugar. Impossível chegar lá.

Gostaríamos de preencher-lhe o olhar, de qualquer maneira, outra vez. À força, se preciso, a pazadas de energia: por favor, por favor, aceita isto que te damos, é força para continuares a ser o mesmo, doce e encantador.

Mas como se preenche de volta o olhar de um homem que perdeu o filho? E o amava.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Para nós houve esperança















Seguimos
quebradas
na escuridão dos dias cheios de sol.
Para nós houve esperança,
Embora pensássemos que não.


Este tempo não é de paixões, não é de fogos.
Este tempo é de coisas que nos deformam .

* Foto de António Gregório

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

do corpo em espera.


o corpo não espera. não. por nós
ou pelo amor. este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo.*

*jorge de sena.
fotografia de joana linda.

da eternidade às costas.*



*ou quando o para sempre se torna pesado.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O homem com dois poços no lugar dos olhos- I

Conheci-o tinha ele dois poços sem fundo no lugar dos olhos. Eram poços mesmo, nem um vislumbre de branco, pupilas, íris. Só dois pequenos globos pretos e opacos, debaixo dos cabelos prateados pelo uso do tempo. Teriam algum dia escondido inseguranças, acendido paixões, encancarado convites? Não precisei de mover os lábios para perguntar. Porque quando caí, leve, na outra ponta do banco, no meio do parque, ele ficou tão surpreendido que me falou.

- Nunca ninguém se aproxima de mim. E, no entanto, sentou-se. Não temeu a loucura.

Quis dizer-lhe que conheço bem essa deusa odiosa, privo com ela em todos os minutos, conheço-lhe o hálito e o modo de caminhar - olha, lá está ela a rondar. Só que o homem prosseguiu, sem voltar o rosto para mim, os dois sentados no banco verde escuro. (Podíamos ser musgo, ninguém dá por nós, de qualquer forma.) Explicou por que razão daqueles olhos não escorria cor.