sábado, 26 de novembro de 2011
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Bom dia
Há pessoas de quem gosto desde o primeiro instante. Pode ser o homem que, num dia de Inverno, entre uma multidão de guarda-chuvas, se detém para apanhar o vaso de flores caído que a florista, do ventre quente da loja, não pôde cuidar (e, se calhar, mesmo que o visse tombar, não cuidaria). Penso sempre que as plantas são gente, apenas de aspecto e vivências distintos. Quando o meu corpo colide com a mais pequena parte do seu corpo vegetal, eu peço desculpa interiormente.
Gosto também daqueles que, indiferentes ao olhar de espanto e desconfiança dos outros, dizem bom dia. Deixa-os a pensar: “Será que o conheço?”. Ignoram que não é preciso conhecer. Que, aliás, nunca se conhece quem quer que seja.
Gosto também daqueles que, indiferentes ao olhar de espanto e desconfiança dos outros, dizem bom dia. Deixa-os a pensar: “Será que o conheço?”. Ignoram que não é preciso conhecer. Que, aliás, nunca se conhece quem quer que seja.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Fogo
Vens caminhando sobre fogo
E entras por mim adentro sem um som.
Eu nunca te toco.
Eu nunca te pude tocar.
E entras por mim adentro sem um som.
Eu nunca te toco.
Eu nunca te pude tocar.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Drave
Nela, a noite. A face obscura da noite, e o medo. O olhar perdido no horizonte de gelo, na imensidão dos montes e na vegetação rasteira com as suas flores amarelas e roxas misturando-se em mantos de natureza intocada. Como ela. O vento atravessa-a com indiferença, penetra-a com indiferença, mas não se fixa, não fica mais que um instante. Nesse instante existem muitas imagens de frio, de sangue. Os rostos queridos ficaram para trás. A solidão não magoa, magoa a consciência que a separa dos animais e das plantas e das pedras cinzentas da aldeia despovoada.
Ali seria, talvez, possível viver. Ali seria, por certo, também possível morrer. A diferença repousaria somente na paisagem e na pureza do vento implacável, mais feroz e livre que nos outros lugares distantes do mundo. A diferença repousaria no silêncio e no cheiro a erva molhada, na canção lenta e desconhecida das águas correndo sem cessar. A diferença repousaria na noite, funda, funda. A noite está dentro dela, companheira fiel e descomprometida, guardiã de segredos inconfessados, brilhantes, encardidos. Conhece os momentos inacreditáveis em que o espírito atingiu patamares opostos, repletos de vergonha e de ternura. A noite do desejo, do desespero, dos abandonos e reencontros temíveis; ama da destruição desse amor maior do que a vida, maior do que a morte. Insuportável e condenado desde o início dos tempos.
Tantas as súplicas que se escapam dos lábios sem cor! Espalham-se no ar revolto e voam – quais pétalas ondulando desatinadas, loucas – rumo ao precipício. Não se vê o seu fim, apenas se adivinha com fria certeza que nenhuma mão milagrosa as terá amparado na sua queda. Chove, e a chuva consegue turvar os pensamentos e os olhos. Para além dos montes, para além das estradas de terra batida e da ausência de música (qualquer que seja), existe uma casa para onde ela não quer voltar. No seu interior, um compartimento alberga as provas físicas da existência dos rostos queridos, dos lugares onde o céu é azul, sempre.
Constatar que foi feliz fá-la ter vontade de fugir e caminhar depressa por entre as ruas de cidades díspares. Não raras vezes, cruza-se com desconhecidos que lhe lançam olhares profundíssimos, inquiridores. Respira aliviada por saber que é, provavelmente, a última vez que os vê. Dessa forma não corre o risco de os guardar e relembrar, e ninguém fará perguntas, ninguém desiludirá, os corpos permanecerão limpos das carícias que poderiam ter sido.
domingo, 20 de setembro de 2009
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Carne exposta
O meu Amor repousa, estendido, na estrada. Tão mutilado que custa olhar. O pêlo brilha, ainda, por entre a carne exposta. Com o tempo, dizem-me, perderá a forma. Será cada vez mais uma mancha indefinida, algo que não se percebe o que foi, tão desfigurado surge. Mas eu saberei sempre - mesmo que o vento e a chuva e os homens o reduzam a algo invisível - que o meu amor está ali. Ainda que morto, esmagado, sem dignidade.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
sexta-feira, 24 de julho de 2009
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Especial

Todos lhe diziam que era especial. Ele sabia porquê: nascera com o coração fora do corpo, trancado numa caixa de vidro presa apenas por um cordão muito fino, cor de prata. No Inverno, acomodava o órgão, quente, no interior da sua invulgar protecção, no bolso do casaco. Chegava a esquecer-se dele. Por vezes, um gesto mais brusco atirava-o ao chão. Nunca sofreu mais do que uns arranhões – a caixa, não o coração. Esse pulsava lá dentro, era igual aos outros, tinha um ar muito vivo, forte. Com a chegada do calor, costumava segurá-lo na mão. Era nessas alturas que as pessoas lhe diziam: és especial.
Num dia especialmente quente, ele conheceu a Ilusão. Era bela, mas de uma beleza sem padrão. Se lhe perguntassem “o que vês nela?”, não saberia dizer. Não era isso o amor? A tortura dos sentidos enclausurados, a implorar liberdade sem freio? As semanas correram num delírio de emoções. Quando saíam juntos ele perdia-se no olhar perturbador dela e, não raras vezes, deixou a caixa com o coração – agora, sacudia-se com mais violência do que nunca – arrastar-se pelas ruas. Até ficar mais e mais debilitada. Aquelas pessoas que não lhe diziam “és especial” pediram-lhe cautelas. Em vão.
Num dia calmo de estacionamento dos corpos à beira do lago habitual, a Ilusão beijou-o e aproveitou o momento de rendição. Sem dificuldade, quebrou a caixa de vidro que protegia o coração (como podiam aqueles dedos tão esguios e aparentemente frágeis ter tanta força?) e, com as longas unhas, cortou-o em fatias bonitas, com a mesma espessura.
Ele demorou algum tempo a aperceber-se.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
A explosão
Fazer um corte, uma tatuagem, uma explosão, uma catástrofe. Matar. Para não morrer tanto.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
mármore.

- Hoje acordei com o lado direito do corpo apodrecido.
- Hoje acordei com o mar dentro dos olhos.
- O mar estava revolto ou apaziguado?
- Revolto. com ondas feitas de rostos passados.
- Tinham rugas ou conservavam o mármore mortífero?
- Tinham mapas de mundos destruídos, cravados na pele.
- Então a ruína sempre vem para todos.
- A ruína vem para aqueles que ergueram sonhos e estenderam caminhos. É injusto.
- Não. Todos caem.
- Mesmo os protegidos pela cegueira?
- Um dia o mundo vinga-se.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
a dança.

- Tesouros de sangue, guardo tesouros de sangue nas aves que partem com os meus olhos.
- Os céus cobrem as primaveras guardadas nos teus olhos. As aves, essas, pousam nos beirais dos corpos que se agitam na tempestade.
- As primaveras são de luz e sangue, é bom ter havido primaveras. E corpos despertos.
- Quantas vezes morre um corpo por não ter sentido a dança de histórias finitas?
- Demasiadas.
*imagem de chooupinette.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
sexta-feira, 27 de março de 2009
Hoje

Hoje, a vida é triste como um animal ferido que queríamos ajudar, como um velho que perdeu a companheira da vida toda, como o frio dos dias de chuva que nos apanha de t-shirt apenas. Hoje, pesa-te a tua inutilidade. Perguntas: por que não podes, com a tua ânsia criadora, acertar as imperfeições do mundo?
(Olha, gato, não estás mais doente, acabou-se a dor no silêncio, acabaram-se os maus tratos e agora o teu mundo é longo e feliz, tens calor para adormeceres em paz. Tens festas.)
Nos sorrisos mais escondidos hei-de encontrar escape. Vou aninhar-me como numa camisola felpuda e esperar que me dêem atenção enquanto finjo dormir.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
"Dias vai continuar a haver"

Como é que se preenche de volta o olhar de um homem que perdeu o filho?
E o amava. Porque há pais que só o são por acaso. Porque aconteceu, porque toda a gente o faz, porque depois outros tomarão conta dele, e que vale isso, afinal?
Este homem amava o filho e sentia que a escuridão se ia embora quando ele chegava, sem avisar, à casa modesta naquela aldeia perdida, muito perto da praia. Ali, não cheirava a mar, mas havia de chegar o aroma a desespero característico das horas em que mais um pescador é engolido pelas águas salgadas e intempestivas. E, simplesmente, se sabe.
Este homem, que amava o filho, era tão belo na sua virtude que nem os dentes estragados, de um amarelo torrado, lhe desfaziam a face azul transparente, como imaginamos o corpo das sereias. E elas deviam andar perto, a cantar-lhe, porque ele não ouvia ninguém - nem queria. Conseguem imaginar Joaquim, que morreu para a esperança e para a alegria, quase totalmente, num dia de Natal, e ainda é belo? E chora, chora, e faz-nos querer chorar só porque não havia direito.
“Dias vai continuar a haver”.
Tudo vai continuar a haver, só ele é que não. Nota-se, o que o habita já voou para qualquer lugar. Impossível chegar lá.
Gostaríamos de preencher-lhe o olhar, de qualquer maneira, outra vez. À força, se preciso, a pazadas de energia: por favor, por favor, aceita isto que te damos, é força para continuares a ser o mesmo, doce e encantador.
Mas como se preenche de volta o olhar de um homem que perdeu o filho? E o amava.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Para nós houve esperança
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
do corpo em espera.

o corpo não espera. não. por nós
ou pelo amor. este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo.*
*jorge de sena.
fotografia de joana linda.
fotografia de joana linda.
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